quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A era dos transtornos




Evidencia-se que o processo de aprendizagem da linguagem escrita é um fenômeno complexo que envolve uma multiplicidade de fatores – culturais, sociais, políticos, educacionais, subjetivos etc. – e que jamais pode ser reduzido a uma questão de natureza simplesmente biológica. Dessa maneira, ratifica-se a concepção contra-hegemônica de que a escrita constitui um fenômeno conceitual singular, de tal modo que as diversidades não devem ser vistas, a priori, como sinais ou sintomas de um Transtorno Funcional Específico (TFE), mas como indícios das singularidades no processo de apropriação da escrita.

Entende-se que a manutenção de uma concepção de um determinismo biológico para as dificuldades na aprendizagem ou domínio da escrita – e até mesmo o próprio conceito de TFE -, na verdade envolve uma questão paradigmática. É preciso considerar que uma construção teórica sustentada por um paradigma nada mais é do que uma hipótese e, portanto, não pode ser arrolada como a verdadeira natureza do real. O fato é que os paradigmas passaram a se instituir como verdadeiras doutrinas acadêmico-científicas, prevalecendo numa sociedade aquele definido pela ciência de maior eloquência política. E assim se perpetuam nos meios acadêmicos, médico e escolar os processos de patologização¸ justamente porque escamoteado nas teorias formuladas por essas ciências de maior eloquência esteve, e permanece, um sujeito ideal – perfeito, abstrato e universal.

E assim vivemos, a “Era dos Transtornos”, um tempo em que os sujeitos são despossuídos de si mesmos e enredados na teia de diagnósticos-rótulos-etiquetas antigos, novos ou reinventados:

“Menino Maluquinho não existe mais, está rotulado e recebendo psicotrópicos para TDAH; Xaveco não vive mais nas nuvens, aterrissou desde que seu Déficit de Atenção foi identificado; Cebolinha está em treinamento na mesma cabine e nas mesmas tarefas usadas para rotulá-lo como portador de Distúrbio de Processamento Auditivo (DPAC) e assim está em tratamento profilático de dislexia que terá com certeza quando ingressar na escola; Cascão é objeto de grandes debates no comitê que está elaborando o DSM V, com divergências se ele sofreria de TOCS (Transtorno Obsessivo Compulsivo por Sujeira) ou de TFH (Transtorno de Fobia Hídrica), mas tudo indica que chegarão a um acordo e os dois novos transtornos recém-inventados serão lançados no mercado, pois quanto mais transtornos melhor.” (Moysés MA, Collares CAL, 2013)

Diante de tal patologização, a atuação fonoaudiológica educacional convoca a elaboração de uma proposta de intervenção sustentada em princípios e procedimentos que contribuam para que as instituições educacionais brasileiras cumpram, o mais efetivamente possível o seu papel social, constituindo-se como escolas verdadeiramente inclusivas, cujos princípios orientem a Educação do século XXI, sob a perspectiva do direito à diversidade, à identidade cultural e à autonomia.



Referências:

Marchesan IR, Silva HJ, Tomé MC (orgs). Tratado das Especialidades em Fonoaudiologia. 1ª Ed [Reimpr.]. São Paulo: Roca, 2014.

Moysés MA, Collares CAL. Medicalização o obscurantismo reinventado. In: Collares CAL, Moysés MA, Ribeiro MC (org.). Novas capturas, antigos diagnósticos na era dos transtornos. São Paulo: Mercado de Letras; 2013b, p. 41-65.

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