quinta-feira, 30 de junho de 2016

Desenvolvimento da consciência fonológica na criança surda




A consciência fonológica é a capacidade de segmentar de modo consciente as palavras em suas menores unidades, em sílabas e em fonemas. Para a criança aprender a ler, ela precisa estabelecer correspondência entre código escrito e código oral. Várias habilidades estão envolvidas nesse contexto. A capacidade de segmentar fonemas, a manipulação de sílabas e a construção de rimas fazem com que ocorra o despertar da consciência fonológica, que se compreenda que as palavras são constituídas por unidades menores, as quais combinam-se entre si dando origem a outras palavras. Este processo de codificação, decodificação, comparação e reconhecimento permite que a escrita seja processada. Portanto, a consciência fonológica serve muito bem para os ouvintes representarem, de maneira intuitiva, as propriedades fonológicas da língua falada. Será que, com crianças surdas, esse processo ocorre da mesma forma? Espera-se que, ao alfabetizar uma criança surda, essa apresente o mesmo potencial de leitura e escrita. Enquanto a criança ouvinte recorre aos sons da sua fala interna, não se sabia se a criança surda recorria somente às propriedades visuais de sinalização para processar a escrita!
A literatura ainda não tem fornecido sólidas evidências a respeito da existência da consciência fonológica em crianças surdas. Entretanto, observa se que elas aprendem a ler quando estão na escola, o que permite inferir que, talvez, tenham algum nível de consciência fonológica, porém, sem afirmar que a relação entre essa e a leitura ocorre da mesma maneira que em crianças ouvintes. O estudo conduzido por Allman em 2002 diz que ainda não se conhece claramente como as crianças surdas organizam a informação fonológica do idioma falado e em que ponto isso se constitui em fator crítico para o desenvolvimento da leitura e da escrita. Para Leybaert (1993) elas adquirem a consciência fonológica de maneira particular, combinando a informação recebida por meio da leitura labial, do alfabeto manual, da fonoarticulação e da exposição à leitura. Segundo Harris e Moreno (2004) muitos estudos já têm provado que a maioria das crianças surdas encontra dificuldades para ler. E há muitas dúvidas sobre o porquê desta tarefa ser tão difícil para elas. Um dos pontos principais seria o tipo de estratégia que elas desenvolvem para aprender a ler. Há maior heterogeneidade entre a população surda acerca disso do que na de ouvintes, para as quais já é bastante conhecida e estudada a importância da relação entre letras e sons.
Segundo Transler, Leybaert e Gombert (1999), para ler as crianças ouvintes utilizam um processo de decodificação que se baseia na correspondência entre o que está escrito e a forma fonológica de cada item. De fato a utilização deste processo de associação fonológica requer um desenvolvimento prévio da sensibilidade da criança para a estrutura fonológica da língua falada. A grande questão é se surdas também usam tal processo para ler, visto que estas não têm domínio da linguagem falada. Assim, estudos que visem verificar as habilidades de consciência fonológica não apenas em crianças ouvintes, mas nas surdas são importantes à medida que podem, indiretamente, facilitar o processo de aquisição de leitura e escrita delas. Uma solução prática proposta pela literatura para esta dificuldade com as habilidades de consciência fonológica seria o seu treinamento o mais cedo possível para aprimorar a habilidade de leitura.
Neste caso, o treino também seria uma forma eficiente de se prevenir e/ou remediar as dificuldades de leitura e escrita, por atuar diretamente sobre a consciência fonológica. Diversos estudos têm buscado descobrir a melhor forma de realizar um treinamento das habilidades de consciência fonológica, em diversas idades e fases de alfabetização, visando facilitar o desenvolvimento da leitura e da escrita. Em geral, eles envolvem atividades simples, lúdicas e comumente realizadas em sala de aula por muitos professores, de forma estruturada e respeitando o grau de dificuldade exigido para cada habilidade.
Questões como: Quais habilidades são necessárias para que uma criança surda usuária de LIBRAS aprenda a ler e a escrever em português? Se o aprendizado da linguagem é um processo complexo para crianças nascidas com deficiência auditiva, qual o nível de dificuldade esperado para aquisição de linguagem escrita, uma vez que a literatura considera essencial o domínio de linguagem (oral ou de sinais) para aprender a ler e escrever? Há algum tipo de consciência fonológica que auxilie essas crianças na tarefa? Há mecanismos ou rotas diferentes para a aprendizagem de leitura e escrita que são utilizadas por crianças surdas? O uso de treinos de habilidades de consciência fonológica, que sabidamente auxiliam no desempenho dessas habilidades para crianças ouvintes, poderia auxiliar também crianças surdas? E outras questões a respeito de como crianças surdas aprendem a ler e escrever ainda se encontram sem respostas!!

Informações extraídas dos seguintes artigos:

Desenvolvimento da consciência fonológica da criança surda. (Mendes et al., 2003), Revista Cefac.

Programa de treinamento de consciência fonológica para crianças surdas bilíngues. (Souza e Bandini, 2007). Disponível em www.scielo.br/paideia.


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