sexta-feira, 15 de abril de 2016

Qual linguagem você fala com pacientes e familiares?



    Imagine uma viagem a um país estrangeiro, onde as pessoas falam uma língua desconhecida. Nenhum intérprete, nenhum amigo que fale a língua e você não tem nem um aplicativo de tradução instalado no seu telefone! Quanto que você pode entender? Você certamente ficará frustrado, oprimido e com medo. Qualquer um sentiria perplexo por esta incapacidade de entender informações críticas.
    Para a maioria das famílias de pacientes com distúrbios da comunicação, a nossa linguagem profissional soa estranho para eles. Nosso mundo profissional inclui palavras como: avaliação do processamento auditivo, audiometria, SSW, fala com ruído, IPRF, imitanciometria, emissões otoacústicas por produto de distorção, distúrbio de linguagem, orelha média, orelha interna, disgrafia, treinamento auditivo acusticamente controlado, e muitas outras palavras...
    Nós discutimos tranquilamente estes temas durante todos os dias. Essas palavras “saem da nossa boca como um passe de mágica”! Para pessoas sem o nosso background, sem passar pela formação em Fonoaudiologia, considerados a maior parte dos nossos pacientes e famílias, estes termos são considerados estrangeiros. Uma família, por exemplo, pode achar que é difícil ajudar seu filho ou ente querido, se eles estão concentrando-se para compreender o que estes termos técnicos significam.
    A nossa profissão é justamente promover uma comunicação clara para todos, tornando-se assim aquela informação importante em uma linguagem simples, com base em evidências científicas, que seu paciente e família compreenderão pela primeira vez que você explicar. Ao compartilhar informações sobre distúrbios da comunicação, assumir que nem todos estão familiarizados com os nossos jargões. Ao escrever materiais para pacientes e familiares, torne a informação compreensível para a maioria das pessoas. Quando os nossos pacientes e famílias têm uma compreensão clara do diagnóstico, plano de tratamento e programação de casa, eles estão mais propensos a seguir as suas recomendações!
    O exemplo abaixo aconteceu comigo em 2010, no Centro de Referência em Neurofibromatoses, quando fui explicar o que era a avaliação do processamento auditivo para um paciente de 10 anos. Utilizei a história do “Sapato Roxo”. Veja a linguagem que utilizei, mas sempre com base em evidências científicas:

“O processo da produção de um sapato roxo é muito complexo, tem várias etapas, percorre um caminho longo, com várias estações de produção desde a chegada da matéria prima até o acabamento do sapato roxo. O sistema auditivo também é muito complexo. O som chega na orelha, percorre um longo caminho e passa por várias estações, que moldam o “som” até ele ser “compreendido” lá no cérebro. Hoje com esse aparelho que chama audiômetro, vamos ver se esse “caminho” que “sai” da orelha e chega lá no cérebro, se ele está funcionando bem! Produzir um sapato roxo demora, não é mesmo? Temos que cortar, colar, costurar, acabar o sapato roxo... A avaliação do processamento auditivo também pode demorar um pouco, pode ser que precisaremos de mais dias para terminar a avaliação... Alguma dúvida? Vamos começar a avaliação?”

    Dicas rápidas para ajudar a incorporar uma linguagem mais simples:

·         Tenha em mente que nem todos tem o seu conhecimento e seu histórico de formação;
·    Explique no máximo três conceitos de uma só vez. Este número de informações é o que geralmente as pessoas conseguem reter durante uma conversa;
·         Forneça papel e caneta para famílias de pacientes para tomar notas sobre as informações;
·         Tire um tempo para se certificar de que você explicou as informações com clareza;
·         Verifique se há perguntas, afirmando e perguntando: "Diga-me que perguntas você tem" ou "O que posso explicar melhor?".

    Na próxima vez que você se encontrar com uma família ou paciente, pense como você pode se comunicar mais claramente com eles. Uma comunicação mais clara corresponde a uma compreensão maior. Quando ensinamos os pacientes e famílias sobre, por exemplo, distúrbios da audição e linguagem, não devemos avaliar a quantidade de informações que eles conhecem! Devemos avaliar quão bem nós podemos ensiná-los!! 

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